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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Se, depois de eu morrer

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem setimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.

Alberto Caeiro

O eu ninguém...

O vento ouve por mimAquilo que a noite fala
Aquilo que a noite diz
O vento... estremece aqui
Quando a lágrima cai
E o futuro nunca está
Onde está o sentir
Leva-me...
Leva-me para lá das colinas de neve leve
Leva-me...
Leva-me para lá do nível alegre e breve da cintilância
E aí... talvez.. a fragrância... talvez o corpo... talvez.. o tempo...
Sejam outros...
E Eu seja... aí.. talvez... um outro Eu...
Um outro estar... um outro sentir... um outro amar.. um outro correr...
E o vento na face... e a face no riso... tocando-me e agitando-me...
Antes de partir...
E Eu seja...
E Eu fosse...
Talvez...aí... o Eu ninguém
Que dorme e desperta
No amanhã...agora!

Autor: Pedro Campos

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Florbela Espanca

"Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.
Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?... "

Florbela Espanca